
Por Danilo de Carvalho, ilustração por Lucci Liz.
Cova dos Leões ou
No fundo do mar, dançamos
Ei, pastor
Eu me lembrei de uma passagem bíblica
Vocês nos jogaram na cova pra ser comida dos leões e adivinha?
Nós os domesticamos
A noite é preta então ela também é nois e dela não temos medo
Somos feras e feito lobos para lua uivamos, panteras negras guardamos nossos segredos
Mulheres e homens que correm com lobos, não
onças pintadas, jaguatiricas, raposas, tamanduás e mico-leão
Esse é o real retrato do Brasil
Queremos correr com lobos-guarás nos nossos bolsos
Sem ser baleados pelas costas
Nadar com os peixes nas nossas contas
Sem a ilusão do mundo de vidro, preso no aquário tipo faz de contas
Queremos nos amar como tartarugas de mãos dadas com a liberdade de poder ir devagar
Afinal
Por cima do mar eu vim
Por cima do mar eu vou voltar
Minha gente foi lançada aos tubarões
Mas aprendemos com águas vivas a queimar quem no nosso cabelo encosta e como golfinhos saltamos em liberdade lançado-nos ao ar
Mamãe Iemanjá cuidou de mim no fundo do mar
A Maré tá cheia ioio
A Maré tá cheia iaiá
Do fundo do mar nois veio
Calando a boca das feras que rugem, que rugem, que rugem tentando nos amedrontar
Mas hoje não xará



