
Por Giselle Paulino, foto de Haroldo Castro.
Quando eu conto, nem todo mundo acredita. No sítio onde moro, além de jaboticaba, amora e pera, bem na frente da cozinha, ao lado de um manacá, tem um pé de beija-flor. Em abril, quando as passam as chuvas, os pequenos seres alados de asinhas cintilantes desabrocham pelo ar. É um zum zum zum só. Brincam de pega-pega, apostam corrida, dão rasantes. Formam cirandas na copa da árvore e se deliciam na doçura da pequena flor vermelha do cipó-tapiá.
Mas nem todos conseguem enxergam o pé de beija flor. Pois na maior parte do tempo, o que se ve é apenas um cedrinho velho sem folhas, repleto de fungos, tomado por um cipó retorcido por seus galhos secos. Um dia, diante de coisa tão sem graça, quase mandaram cortar. O que ninguém sabia é que quando chega a hora, o cipó volta a mostrar suas joias vermelhas, suculentas, irresistível. Não tem um que fique de fora. Passado esse momento, no restante do ano, quando falo do pé de beija flor, poucos me escutam. Não enxergam além do tronco cinza do pinheiro sem vida, sem graça. “Aqui tem um pé de beija flor”, eu insisto em querer mostrar.
Aprendi ao longo dos anos que a peça do quebra-cabeça, a palavra que faltava, a mágica capaz de mudar o resto de uma vida toda podem estar nos lugares que menos se espera. Sabedoria, aprendizados e conhecimentos não habitam no óbvio. Quando um grupo de amigas e eu passamos a falar de outros lugares de aprendizagem, que as ruas das nossas comunidades, favelas, quilombos e florestas eram nossas verdadeiras escolas, que os mestres seriam pessoas sábias sem diplomas, mas com conhecimentos práticos e o mundo nossa sala de aula, vinham os olhares de espanto. “Mas como é que é isso aí? Que história é essa?” Até hoje costumam me perguntar.
É compreensível. Fomos condicionados a acreditar no visível, a nos contentar apenas com aquilo que foi dado, como se tudo estivesse pronto, terminado. Deixamos de criar, de imaginar, de ousar. De ler nas entrelinhas e de enxergar belezas que estão por se revelar. Com o aprendizado acontece o mesmo. Crescemos aceitando que aprender é aquilo que acontece apenas dentro de um prédio com paredes, que ser inteligente é decorar fórmulas, que competir com o colega ao lado e pensar de forma individual vão nos fazer chegar aonde queremos. Fomos ensinados a obedecer, a tolher a inventividade e a cooperação. E em troca de um 10, ficamos presos num sistema de controle e comando, repetindo de forma mecânica o que o outro definiu como verdade. Somos condicionados a agradar, a acreditar que existe uma única forma de aprender e de vier. Nosso olhar foi condicionado a não enxergar além. A acreditar que o cedrinho ao lado da cozinha é apenas uma árvore velha, sem vida e sem graça.
Certa vez, quando estava na idade em que a sociedade nos cobra um rumo e respostas sobre o que fazer pelo resto da vida, consultei um adivinho. Com minha data e horário de nascimento em mãos, o senhor passou a trazer informações importantes. “Seu trabalho será na educação”. Fiquei intrigada. “Logo eu que nunca gostei de escola? Nada a ver”, pensei baixinho. Ele me disse também que o que eu iria fazer na vida, ainda não existia. O local onde eu trabalharia “ainda não tinha endereço”, dizia ele. “Seria preciso criar.”
O que eu não sabia é que essa escola não teria alunos nem professores. Todos teriam o que aprender e o que a ensinar. Os aprendizes seriam peregrinos mais em busca de perguntas do que de respostas. O mundo seria a sala de aula e os mestres e mestras estariam por todas as partes. Nessa escola, os jovens escutariam a história do Brasil contada pelos indígenas e quilombolas. O momento do recreio seria o mais longo de todos. Brincar, celebrar e dançar, seriam partes muito importantes do processo. Eventualmente, quando preciso, teria um momento para matemática, português e assuntos técnicos. Viajar, sair do lugar comum, conhecer povos, culturas e paisagens seriam disciplinas obrigatórias. Ninguém sairia dessa escola sem conhecer e honrar os caminhos que fizeram nossos ancestrais.
Nessa escola, o território local seria o mais importante de todos. Dores e feridas teriam um espaço especial. Aprenderíamos a olhar para elas, a reconhecê-las, e a falar sobre nossas sombras sem nenhum impedimento. Quem sabe assim, evitaríamos tanta confusão. Aliás, todos os meses faríamos uma festa para nossas próprias contradições. Nessa escola aprenderíamos que amor não se compra e o vazio existencial não se preenche com bens materiais.
Orquestrando essa alquimia, uma espécie de “ciranda de mulheres sábias”, como escreveu Clarissa Pinkola. Semi-deusas, fortes, destemidas e sensíveis. Cada uma com seus temperamentos e defeitinhos, claro, com suas dores e imperfeições, mas que as tornariam ainda mais reais e rainhas.
Hoje, sete anos depois dos primeiros movimentos da UniKebradas, quando olho para trás, é o que vejo. O sonho do futuro é o presente. Sete anos se passaram. Jornada à Índia, México, Egito, África do Sul. Encontros locais e globais que sacudiram as estruturas. Aprendemos, sonhamos e realizamos. Nem tudo foi feito de flores. Teve gente que saiu, foi embora. Houve desencontros, separações, emoções e lágrimas. Mas qual história seria real sem a presença delas. Que aprendizado e crescimento seriam possíveis sem a dor? Crescer dói, desaprender e desconstruir, olhar as próprias sombras, se despir das antigas couraças dói, exige coragem.
Sete anos se passaram. Sete, o número mágico. No Tarô, é a carta do carro, da direção, que sugere também a disciplina. Sim, o ritmo faz parte. Mas especialmente, o sete é a carta da vitória. E é como me sinto ao lembrar de tantas pessoas que beberam dessa fonte. Quantas vidas foram mudadas, pensamentos transformados. Mais que vitoriosa, me sinto frondosa, enraizada, sentindo a satisfação em ver minhas folhas caírem para nutrir o solo. Vejo jovens, adultos e adolescentes soltando suas amarras, refazendo elos, percorrendo estradas pelas quais passei, reassumindo seus lugares, seguindo seus desejos, tecendo seus sonhos, traçando suas jornadas.
Quem diria? É como ver mais uma vez aquele Pé de Beija Flor desabrochar. Voem longe, meu buque de passarinhos. Tenho a esperança de que criem, inventem caminhos que não nos foram dados, aqueles que ainda nem sabemos que podem ser criados. Aqueles que talvez possam nos levar a outros espaços muito mais mágicos e floridos.


