A Selkie

Por Marina Gonçalves.

Eu amo o mar como não consigo amar nada mais, eu venho dele mas as águas se recusam a me ter de volta, elas me jogam violentamente e ralam meus joelhos, cortam minhas mãos. O mar se lembra de mim, disso sei, me criou e banhou nas ondas de Chipre, curvou meus cabelos em estrelas do mar e viu-me transformar minha cauda em pés, pés humanos, pés que pisam e destroem as lindas conchas. 

E enquanto tentava voltar para casa, a espuma que antes abraçava, me derruba em  maremotos, raiva e traição, me questiona furioso como pude deixá-lo? Como pude imaginar vida em terra seca?! Agora me deixa presa em terra firme… não há mais fúria, não há mais violência, apenas desprezo, um silêncio ensurdecedor na quebra da maré contra as rochas, que antes tão desesperadamente tentavam me arrastar para o meu lar…

Mas as vezes, quando o mundo está quieto e a única testemunha é a lua, ele me deixa flutuar nas suas costas como se eu não fosse mais uma humana suja, mas sim como quando eu era parte dele, há muitos…muitos anos atrás.

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