
Entrevista por Marina Gonçalves, convidadas Tina Costa e Nádia Mendes.
Um dia desses, enquanto viajava por São Paulo utilizando a linha vermelha da SP-Trans, perdida em pensamentos e uma musiquinha famosa do momento, senti o mundo de alguém parar, no mesmo momento que o Thum ecoou embaixo do trem. Meu primeiro pensamento foi um grande palavrão, imaginando o quão desesperado o pobre moço estava para escolher um fim tão doloroso, e mal estava completando essa reflexão quando ouvi: “Caramba, que horinha pra escolher se matar! E bem na Sé!”.
Na hora, consegui ouvir perfeitamente a voz do grande músico Chico Buarque, a letra “Morreu na contra mão atrapalhando O tráfego…” harmonizando com o som da ambulância me deixou perplexa, é possível sermos tão insensíveis assim? Não vi a pessoa que comentou, mas a questão ficou comigo por muitos dias depois daquela manhã fria no metrô. Se fosse um idoso, seria tão duro por causa da vida difícil que teve? E um adolescente, será realmente culpa do celular? Resolvi então fazer um experimento: Chamei duas pessoas com a diferença de 2 gerações uma para a outra e lhes fiz as mesmas perguntas, para entender exatamente o que é empatia vista por diferentes olhos.
Tina Costa é uma palestrante de 54 anos, envolvida em trabalhos sociais por mais de 20 anos.
Nádia Mendes tem 22 anos e é estudante de publicidade, nascida na Zona leste de São Paulo.
1. Empatia: nasce com a gente ou dá pra aprender no decorrer?
T: Sim, empatia é como um musculo que se nasce com o mínimo mas da pra desenvolver, não é um sentimento mas sim uma habilidade comportamental que todos tem.
N: Podemos aprender.
2. Arrasta pra cima infinito diminui a sensibilidade ou só muda o jeito de sentir?
T: Muda totalmente, esse movimento anestesia gradativamente como percebemos a emoção. Mas eu ainda percebo porque venho de outra geração, um cérebro mais novo se molda e para de sentir.
N: Muda o jeito de sentir e em muitos casos, acaba diminuindo a sensibilidade. Excesso de estímulos e muitas histórias diferentes podem gerar desgaste e distanciamento.
3. Cancelamento é falta de empatia ou excesso de julgamento?
T: Um pouco dos dois, a falta de empatia causa o excesso de julgamento, o cancelamento é uma consequência disso.
N: Atualmente acredito que seja excesso de julgamento.
4. Dá pra ser empático num mundo tão acelerado?
T: Não só dá como é necessário e vital.
N: Dá, mas exige mais esforço consciente.
5. É mais difícil se colocar no lugar do outro hoje ou sempre foi?
T: Sempre foi e sempre será, hoje talvez tenha ficado mais desafiador pelo comportamento da grande maioria das pessoas, que se importa mas não tem tempo para.
N: Sempre foi uma habilidade individual, mas fatores externos podem dificultar esse processo.
6. A gente sente mais… ou só performa mais o que sente nas redes sociais?
T: Expomos mais, sentir sempre sentimos igual.
N: Performamos mais do que sentimos. Apesar de sermos uma geração mais sensível -por sermos mais conscientes dos problemas sociais-, as redes incentivam a exposição e validação.
7. Informação demais pode travar a empatia?
T: Sim, pode contaminar a empatia, é muita coisa para filtrar.
N: Pode, dependendo do conteúdo, o excesso de informações pode gerar cansaço emocional e diminuir a disponibilidade para o outro.
8. Existe diferença entre empatia online e offline?
T: Existe por que a empatia trafega pelo vinco, quanto mais vinco: mais empatia. Uma pessoa na sua frente se machucando e em um vídeo são diferentes.
N: Sim, é mais fácil ser empático com quem está próximo. No online, o distanciamento distorce essa percepção.
9. A sociedade ensina empatia ou só cobra resultado?
T: A sociedade é complexa, ela – pensando em núcleos, como família e escola- ensina e cada um faz o que quer com o que recebeu.
N: Existe cobrança, muitas vezes até de forma hipócrita, mas também estamos evoluindo na forma de entender e falar de empatia.
10. Se empatia fosse matéria obrigatória, como seria a aula perfeita para você?
T: É difícil, que a aula não fosse para mim, mas sim para o outro, já que essa é a base da empatia. E se o outro deseja o mesmo, eu também terei aula.
N: Trazer casos que os alunos se colocam em diferentes situações, identificando como se sentem, começando por si e se
expandindo para o outro de forma consciente.