Manifesto Unikebradas

Por Tina Costa.

 

 

 

Depois da família e da comunidade, a escola é sem dúvida o lugar mais importante que crianças e jovens podem conviver e aprender.

Mas, e se as salas de aula perdessem suas paredes e as árvores fossem também nossos professores? E se além dos livros, a minha ancestralidade fosse a protagonista e através do tom da minha pele e do brilho dos meus olhos, ela contasse a história que realmente aconteceu? 

E se nos juntássemos em uma mesa, e entre temperos e gargalhadas, a cada nova colherada e um sabor experimentado pudéssemos caminhar pelos continentes?

Se o quadro negro se vestisse de tecidos coloridos que carregam o trabalho milenar da criação de tintas sob o calor da África ou da neve da Ásia?

E se árvores, ventos, cidades, aromas e sensações fossem mestres tanto quanto um ser que tem um diploma?

Se o silêncio, paz e amor fossem matérias como a geografia e estatística?

Se o arroz, que ainda está na terra, fosse quem ensinasse às crianças a matemática que diferencia valor de preço?

Se pedras, plantas e animais compartilhassem suas essências, habilidades e funcionalidades fossem elas curativas ou contemplativas?

Se as músicas de todos os povos, tribos, raças e nações fossem o chamamento para nosso momento de alimentação? Física ou espiritual.

Se o perceber for mais relevante que o saber? O sentir fosse tão intenso, permitido e incentivado quanto o vencer?

Já pensou se “nota alta e boa” fosse chorar, rir ou só olhar de fato o outro?

A palavra Singularidade fosse escrita em todas as paredes e cada vez que eu passasse e encontrasse diferenças, saberia que estou segura.

Uma escola sob pontes, árvores, dentro de barracos, mansões, casa de barro ou mármore, onde o mestre senta e o menino ensina em sua brincadeira, que deixa os pés livres, sujos de terra e vida. 

Imagine se todos os rios, pegasse cada aprendiz pela mão e os levassem pela sua história, relatando o que eles sentiram quando civilizações inteiras os procuraram para saciar sua sede, entregar oferendas e banhar seus bebês. Pelo caminho nos apresentam as canções que as cachoeiras fazem e finalmente nos deságuam nos mares de possibilidades.

E se quando contássemos dos heróis, fosse sobre Anita Garibaldi e dona Maria da quitanda da rua lá de trás?

Se os tambores invocassem não só o divino, mas também o profano que carregamos. 

Se professores tivessem nomes como “colo de mãe”, “conselho de pai”, “abraço de amigo” ou “comida de vó”? 

Se justiça fosse um desenho que todos pudessem colorir.

Pois bem, isso já acontece desde que o mundo é mundo. Avós no mundo inteiro ensinam seus descendentes a preparem suas refeições. Os pais compartilham histórias e conhecimentos nas ações do dia a dia. Mães são curandeiras, psicólogas e ecologistas.

Vivemos em comunidades, condomínios, favelas, universos particulares ou comunitários. Dividindo pão e tecnologia, que é suficiente, abundante ou eventualmente também é escasso. Mas, é o que se tem. Simples assim.

Chegou o tempo de compartilharmos isso com mais pessoas. Dizer-lhes que não pensem ou sintam sozinhas. É tempo de sermos apenas seres humanos. Sairmos juntos para o único lugar onde sempre todos teremos lugar: uma jornada para dentro de nós mesmos.

 

Escrito bem longe de casa em 14/02/2020, revisitado em 05/2025, revisitada em 21/10/2025.

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