As Memórias de Marina

Por Marina Gonçalves.

O ano de 2025 começou com uma aliança. Não aquelas que usamos em compromissos ou em casamentos, feita de ouro e pedras preciosas. Não, esta aliança foi partilhada por sete jovens que aprendi a chamar de amigos próximos pelos últimos dois anos de jornada. Nos conhecemos ainda adolescentes, sem caminhos traçados para o futuro, recém-saídos do temível ensino médio brasileiro e jogados no mundo adulto sem nada mais do que um diploma, um tapinha nas costas e a grande expectativa de que com os infinitos conteúdos memorizados nos tornássemos algo…extraordinário.

Confesso que me sentia uma pessoa esnobe na época, patricinha vindo de um colégio privado e militar, acostumada com a ordem e rígidas regras de convivência. Imagine a minha perturbação quando pisei os pés em União de Vila Nova na zona leste de São Paulo para o que seria – em minha visão deturpada -, completo caos artístico. Eu que era chegada em orquestras sinfônicas e galerias de arte sofisticadas, mal soube o que dizer ao ver crianças sentadas no chão, enfiando as mãozinhas gordas em latas de tinta e esfregando na parede limpa, me levaram bons meses para entender o que pintavam, e mais tempo ainda para aceitar que aquelas pinceladas a lá rupestres eram lindas, mais do que qualquer quadro de preço absurdo na Oscar Freire.

Meus colegas eram diferentes. Quando entrei no famigerado Jornadão – nome provisório, que por ironia do destino ficou para sempre -, imaginava que só iria a pedido de minha mãe, uma das criadoras do projeto, ajudaria a espionar os outros, levaria informações importantes, o próprio James Bond renascido em uma brasileira metida. Quem diria que no final, seriam eles que me tirariam do pedestal, para junto do sofá marsala, em um apartamento em Higienópolis, pertencente a dona Suzana Nori, para discutirmos a nossa infinita porém tão rápida jornada de aprendizagem. Enquanto ouvia o grupo falar de suas experiências, enquanto eu mexia uma massa de brownie na cozinha ao lado, me veio a súbita realização da nossa e minha própria maturidade. Como florescemos de quase-adolescentes para adultos capazes, discutindo com graciosidade os próximos passos do projeto que em minha memória até ontem estávamos indo pela primeira vez? E a cada mistura do bolo, mais uma memória vinha até mim: as cachoeiras, montanhas, linhas do Equador invisíveis, noites ao redor da fogueira e cacaus mágicos, todos os pontos que nos trouxeram até este momento, até o desabrochar das asas. 

Entre a organização para o nosso evento de graduação e ser convidada para ser uma das jovens transformadoras do Festival LED no Rio de Janeiro, me senti cada vez mais como uma adulta formada, ou a melhor imitação possível já que depois de passar o dia no Museu do Amanhã discursando sobre o papel dos jovens no mercado de trabalho, a primeira coisa que fiz ao chegar no hotel foi brincar na esteira. Certas coisas nunca mudam afinal. Mas talvez não devessem mudar, em uma sociedade que prega a maturidade como uma imagem de gravatas, reuniões em salas de vidro e tanta cafeína no sangue que seria possível virar um cavalo só com as mãos, a inocência de lidar com as adversidades da vida, seja o que é necessário para girar o globo, se gerações e mais gerações de adultos não conseguiram mudar a realidade sórdida, uma geração de jovens loucos e sonhadores seja o que finalmente dê um rumo às coisas. 

E depois das experiências recentes, palestras e eventos, minha próxima localização é em uma pequena vila perto de Bangkok na Tailândia, 35 horas de vôo para o outro lado do mar. A oportunidade de ir mais longe do que qualquer familiar meu já foi é o que mais me anima? Talvez. Poder encher as bochechas de Pad Thai e fingir ser uma herdeira visitando templos budistas? Isso já é mais eu! Mal posso esperar para escrever minhas próximas memórias e, mais ainda, para rele-las. Em alguns anos, quando meus joelhos doerem e minha pele estiver enrugada, cada linha em meu rosto contar uma história diferente que vivi,  vou suspirar fundo e sorrir, arrumando minhas malas para mais aventuras, por que a alma de criança travessa nunca, nunca irá me deixar.

 

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